O que é Discalculia?

Algumas crianças,  mesmo recebendo todo o conteúdo necessário para se apropriar do conhecimento e do raciocínio matemático, podem ter enormes dificuldades de entender o significado do número em nossa sociedade. Compreender o que ele representa, quais suas diferentes funções e relações com nosso cotidiano é um verdadeiro desafio para uma criança  ou um adolescente com Discalculia.  Muitos pais, ao relatarem o sofrimento de seu filho ou filha, comentam que desde muito pequeno(a), ele(a) tinha muita dificuldade em memorizar números, quantificar sua idade e relacionar o símbolo numérico às proporções e ao espaço de tempo que havia entre uma atividade e outra. Estas confusões são comuns e frequentes em pessoas que não conseguem pensar dentro de uma perspectiva numérica.

A Discalculia é um tipo de transtorno de aprendizagem caracterizada por uma inabilidade ou incapacidade de pensar, refletir, avaliar ou raciocinar processos ou tarefas que envolvam  números ou conceitos matemáticos. Percebe-se desde muito cedo, mas é na escola que todos os sinais e dificuldades se expressam de maneira clara e explícita, pois as exigências são maiores e a sequenciação de tarefas que envolvem aritmética e proporções passam a ser rotineiras.

Em torno de 1% das crianças podem ter Discalculia e é comum que tal condição seja geneticamente determinada tendo relatos parecidos num dos pais ou em parentes próximos. Não podemos confundir Discalculia com insegurança cultural que observamos na aprendizagem da matemática ou com má pedagogia por não ocorrer a completa e/ou suficiente transmissão de conteúdos de acordo com a idade e a escolaridade. A Discalculia é um problema biológico e inato que nada tem a ver com aspectos do ambiente afetando a capacidade da criança em aprender matemática. Estudos de imagem e comparações realizadas entre indivíduos com Discalculia e indivíduos não portadores do transtorno, mostram que os primeiros apresentam o sulco intra-parietal menor. A dificuldade, por sua vez, ocorre por vários motivos: incompreensão com a noção de quantidade associada à palavra ou conceito numérico;  dificuldade em usar a linguagem adequada para representar o número;  problemas de espacialidade e proporcionalidade em relação ao número correspondente; e pouca aptidão para relacionar conceitos matemáticos (como por exemplo, relacionar porcentagem com divisão e conseguir resolver processos que envolvem abstração e representação mental).

A Discalculia pode, na avaliação neuropsicológica, ter déficits em algumas habilidades cognitivas, mas sem comprometimento da inteligência ou do  nível intelectual. Aliás, estas crianças são muito inteligentes e capazes para a escola, mas surpreendentemente não conseguem manter o mesmo padrão para as atividades matemáticas estejam elas onde estiverem, na geografia ou nas ciências, nas artes ou na educação física.  O diagnóstico requer avaliação multidisciplinar com o envolvimento de especialistas nas áreas de psicopedagogia, neuropsicologia e neuropediatria. Não existem exames de imagem ou de laboratório para confirmar, somente sendo concluído mediante testes e correlações com a evolução pedagógica e seu comportamento com os números no cotidiano.

Quanto ao tratamento, não existem medicações, exceto quando há TDAH associado. Ademais, é baseado em intervenção precoce,  adaptação curricular e suporte psicopedagógico. A escola deve compreender a dificuldade e fazer modificações no conteúdo, visando facilitar a aprendizagem da matemática utilizando-se de materiais concretos para ensiná-la. O apoio psicopedagógico ajudará a criança a entender sua dificuldade e manejá-la da melhor forma possível incluindo estratégias metacognitivas.  Não existe “cura” para esta condição e o portador deverá aprender a lidar com o transtorno.

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Comments 17

  1. Este transtorno da aprendizagem é pouco conhecido entre nós educadores. Precisamos conhecer mais para ajudar nossos alunos a superar suas deficiências na área de matemática.

  2. Nesta quinta-feira 8/9 fui chama da pela professora Dr meu filho e ela pediu pra que eu o levasse em um neuro, pois ela tem suspeitas de que ele seja um menino hiperativo, fiquei chocada, mas em fim como faço pra ter certeza já que na minha cidade ñ temos nenhum neuropediatra de confiança e como posso estar ajudado meu filho no desenvolvimento da atenção? Muito obrigada.

  3. Tenho um aluno no oitavo ano e vendo conteudo de quarto ano. A escola agiu de maneira correta? Como ficara a vida do aluno nas series futuras?

  4. acompanho três crianças que tem muitas dificuldades na organização dos conceitos matemáticos mas só um deles posso confirmar que tenha descalculia. Gostaria de ter o assunto trabalhado mais uma vez e se possível a análise da relação com TDAH.

  5. Eu não tinha conhecimento algum sobre esse transtorno de aprendizagem, e como educadora acho que é um tema muito útil para poder auxiliar um aulo que eventualmente tenha esse transtorno.

  6. Precisamos urgentemente investir em nossa formação como professores! Nem tudo é porque os alunos não gostam, não se interessa, ou são preguiçosos…Existem fatores biologicos que os impedem de aprender. E nós Licenciados da Educação precisamos receber essa informação no curso de graduação. Ter 6 meses de aula de Braille ou Libras não são o suficiente. Nas disciplinas de psicologia, de estagio, temas como esse devem ser discutidos no curriculum. Estão enganados sobre os números que o Brasil tem mais surdos ou cegos em sala regular… Em 22 anos de sala de aula, tive 2 cegos, 1 de visão subnormal e dezenas de alunos com TDAH, dislexia, discalculia, dislalia, não acredito que sou a única professora que teve essas dezenas de alunos…Cadê os cursos de formação para tratar desses casos não raros???????????????????

  7. Precisamos nos conscientizarmos enquanto educadores que as crianças precisam vivenciar atividades através de materiais concretos.
    Gostaria de receber algumas sugestões para trabalhar no ambiente escolar.

  8. Tema pouco discutido, na faculdade estudei alguns transtornos, mas este não foi discutido, legal o assunto!

  9. Olá. Lendo essa matéria conclui q meu filho com TDAH, também tem descalculia. Pois ele tem muita difuldade em matemática a ponto de existir entre ele e professor uma briga constante. Professor disse que ele faz pouco caso. Mas não vejo por aí. Gostaria de mais sugestões também sobre.
    Obrigada

  10. Na escola diariamente nos deparamos com alunos que apresentam essas dificuldades, porem a falta de conhecimento, faz com que alguns profissionais rotulem esses alunos como: menos esforçados, preguiçosos dentre outros adjetivos ou culpam a família. Acredito, se já é complicado para o profissional ajudar e tentar mudar a situação sem a devida preparação . Para a família é muito mais difícil. O Stress que essas crianças e familiares passam devem ser considerados pela escola. Acredito que todos profissionais da educação estão cientes da diversidade que vão se deparar em seu cotidiano e devem se preparar para oferecer o melhor. A oportunidade que temos, participando desse curso é singular e enriquecedor. Gostaria que todos educadores tivessem a disponibilidade e a oportunidade de participar.

  11. Meu Deus!, só aos 50 ano de idade vim a descobrir o porque nunca consegui entender a matemática. E a odeio, pois eu apanhava muito da minha mãe, pois só tirava notas baixas nessa matéria. Sempre passei de ano raspando! Tive professora particular, que desistiu de ensinar-me, pois ela foi franca com meus pais, de que ela foi incapaz de fazer-me entender os cálculos matemáticos. Eu chorava muito, ficava desesperada ao me deparar com uma prova de matemática, só pensava na surra que iria levar em casa pela nota baixa.

    1. NeuroSaber Responde
  12. Obrigado ao NeuroSaber por este artigo esclarecedor.
    Pena que só descobri agora!
    E minha mãe que tanto me criticava ja é falecida, para conhecer entender meu problema de infância.

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