TDAH e Transtorno Bipolar: quais as diferenças?

No processo de investigação de transtornos neuropsiquiátricos é muito comum a dificuldade em diferenciá-los ao se avaliar uma criança ou um adolescente trazido pelos pais desesperados por uma orientação ou por um direcionamento terapêutico.

Na fase adulta da vida estas diferenças ficam mais nítidas e claras, mas na fase de desenvolvimento a linha que os delimita é muito tênue e costuma gerar alguma confusão. Em especial, em relação ao TDAH e o Transtorno Bipolar é muito comum nos depararmos com sinais e sintomas muito parecidos, frequentemente presentes em ambas as condições como, por exemplo, estes sintomas que costumam estarem presentes em ambas: alta distractibilidade, impulsividade, taquilalia (falar excessivamente), atividade motora elevada e inconveniente, perda da inibição social (incomum para a idade) e inquietude excessiva.

Por outro lado, é necessário conhecer os aspectos clínicos, evolutivos e resultados de estudos populacionais que trazem evidências úteis que ajudam a selecionar, na avaliação, traços e informações mais intimamente ligados a um ou ao outro. O TDAH (6-10% da população infanto-juvenil; mais comuns em meninos e mais abaixo de 7 anos) é um transtorno de desenvolvimento e, como tal , costuma iniciar muito cedo, antes dos 12 anos , e, em 50% dos casos, antes dos sete anos. Já o Transtorno Bipolar (1-2% da população infantil; ocorre em meninos e meninas com poucas diferenças e acima de 7 anos) tem maior ocorrência na fase inicial da adolescência e maior prejuízo no alvorecer da fase adulta.

Os sinais e sintomas de TDAH são mais ligados à desatenção, hiperatividade e impulsividade. Enquanto a Bipolaridade marca-se pela oscilação de humor (ora euforia,  ora depressão), pensamentos flutuantes e recorrentes e com velocidade elevada de pensamentos, chegando a obsessão e intensa irritabilidade sem motivo aparente muitas vezes associado à intensa alegria/euforia. Sente pouca necessidade para dormir e apresenta hipersexualidade (insinuações precoces, uso de maquiagens exageradas, roupas muito curtas e desejo sexual exacerbado) – os quais se veem em mais de 80% dos casos. No TDAH, a irritabilidade costuma ocorrer no portador quando ocorrem momentos de frustração, espera e/ou ao ser contrariado sem que seja de aparecimento espontâneo.

A hiperatividade do TDAH é frequente e regular no cotidiano do portador enquanto no Transtorno Bipolar esta se apresenta intensa somente quando em fase eufórica ou maníaca. Em contrapartida, na fase bipolar depressiva, o indivíduo fica quieto, retraído e busca isolamento. O risco de suicídio ou de pensamentos suicidas, de psicoses e de quadros depressivos recorrentes podem ocorrer em ambos, mas é muito mais comum, constante e arriscado na bipolaridade. Comumente, na adolescência e fase adulta, sinais de ciúmes excessivo, atos de possessão, obsessão por compras e descontrole emocional para afirmar o que pensa ou o que controla são marcantes sinais do Transtorno Bipolar. No TDAH, a imaturidade emocional, ingenuidade, descontrole por falta de planejamento e organização são muito comuns e, por isto, não costumam controlar, mas sim ser controlados pelos seus pares.

Ao contrário do Transtorno Bipolar que costuma levar a uma desatenção e problemas de memorização menos frequentes, no TDAH tais são a regra e ocasiona, desde cedo, baixo rendimento escolar, fracassos nos processos cognitivos da leitura e da escrita e os testes neuropsicológicos evidenciam significativo déficit executivo e de memória operacional. A avaliação com baterias de testes neuropsicológicos podem ser valiosos para auxiliar na diferenciação, portanto.

É importante salientar que 5-15% dos pacientes com TDAH apresentam a bipolaridade associada e vice-versa. Na adolescência, esta associação revela-se mais frequente, especialmente no que tange aos casos de intensa irritabilidade e hipersexualidade. Por outro lado, naqueles casos que apresentam Transtorno Bipolar, mas que tiveram história de TDAH na infância, o aparecimento de surtos bipolares podem ocorrer mais cedo. Nestes casos, vemos os sintomas de ambas as condições misturadas e a equipe interdisciplinar que avalia deve estar atenta a todos aspectos clínicos presentes para que o tratamento posterior seja global e com redução precoce dos prejuízos.

Para mais informações, indicamos estas referências:

1) Geller B, Zimerman B, Williams M et al. DSM-IV Mania Symptoms in a Prepubertal and Early Adolescent Bipolar Disorder Phenotype Compared to Attention-Deficit Hyperactive and Normal Controls. Journal of Child and Adolescent Psychopharmacology. July 2004, 12(1): 11-25. doi:10.1089/10445460252943533.

2) Geller B, Zimerman B, Williams M, et al. Diagnostic Characteristics of 93 Cases of a Prepubertal and Early Adolescent Bipolar Disorder Phenotype by Gender, Puberty and Comorbid Attention Deficit Hyperactivity Disorder.

Journal of Child and Adolescent Psychopharmacology. September 2000, Vol. 10, No. 3: 157-164

3) Sachs, GS e at al. Comorbidity of Attention Deficit Hyperactivity Disorder With Early- and Late-Onset Bipolar Disorder. Am J Psychiatry 2000; 157:466–468.

Comments 9

  1. Perfeito, amei a leitura, impecável na comparação entre semelhanças e diferenças, a sugestão bibliográfica é sempre muito importante, parabéns à Equipe Neurosaber.

    1. Há variações de organismo pra organismo no que se refere à medicação, seria interessante discutir com o médico que a prescreveu.

  2. Tenho dúvida se meu filho é bipolar ou se tem personalidade boderlaine. Os sintomas são muito parecidos

  3. Excelente texto. Claro e com bastante informacões. É muito importante para os profissionais envolvidos, estarem atentos às caracteristicas comuns associadas às duas patologias. Parabéns Dr Clay.
    Tenho certeza que o curso sera um sucesso.

  4. Cada momento apaixono mais pelos esclarecimentos das minhas dúvidas e conquista quando aplico as ferramentas.

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